Júlio de Ló Blog


Banheiro

Pode parecer um disparate de minha parte, mas vou tocar num assunto que particularmente considero de suma importância para a nossa cultura, mas não vejo ninguém discutindo ou debatendo sobre ele. Por isso, peço que parem de bisbilhotar as fechaduras e abram as portas para o Banheiro!

Qual o papel do banheiro na sociedade atual? O papel é higiênico, isto está claro, entretanto vai muito mais além. O banheiro está presente desde a infância até os últimos dias de nossas vidas. É lá que meninos e meninas se descobrem, criando intimidade com o próprio corpo. Os pré-adolescentes fazem seus primeiros bigodes, mesmo ainda sendo imberbes. Improvisam caretas que jamais sairão dali. As moças se embelezam, se pintam, usam laquê. Os homens maduros compreendem que deixaram de ser aquele garoto cabeludo-imberbe, para se tornar um careca-barbudo. É o primeiro cômodo do dia visitado que nos acomoda. É lá também que em dias fatigantes e frios tomamos banhos que relaxam até alma. As madames atualizam suas fofocas. É onde se descome após deliciosas refeições infindáveis. E os pais se informam sobre o mundo, se conscientizam e se instruem, seja com seus jornais diários, revistas ou livros – local que passa a ser para alguns um templo sagrado, para outros um modesto escritório, e para os mais audaciosos e sonhadores, esperam reerguer e reviver a biblioteca de Alexandria!

O banheiro transcende! Poderia ficar linhas e linhas discorrendo sobre a poesia latrina. Mas gostaria de elucidar outros pontos que também fazem parte deste universo.

Andei reparando que praticamente todos indivíduos, grupos ou tribos sociais utilizam o banheiro. O intrigante é que cada tribo o chama pelo nome que mais lhe convém. Escolhi três como objeto de análise.

T.T., Tribo Toilette – São os refinados. É possível reconhecê-los em circunstâncias diversas, como nas refeições. Se o assunto na mesa for, por exemplo, adubo e alguém fizer cara de nojo, saiba: é um T.T. – hipocrisia ou não, os pratos saboreados se tornarão, em questão de horas, adubo (humano). Reparei que a maior frustração de um integrante da T.T. é de não possuir em casa um bidet, afinal, para eles, “toilette sem bidet não é toilette, monsieur!”.
T.S., Tribo Sanitário – Para encontrá-los, não é tão simples, mas tenho uma dica indefectível. Basta se dirigir a um parque, museu ou show público e então alguém virá lhe perguntar “por favor, conhece algum sanitário por aqui”. Batata! É impressionante! Não há uma vez que isso não ocorra. Eu considero a tribo que mais cresce no país. Há sempre alguém novo querendo participar. Uma característica é que, geralmente, estão ansiosos para encontrar um companheiro sanitário, nunca entendi o porquê. Percebo muitos intelectuais de esquerda e bichos grilos neste movimento. Sim, pode ser chamado de movimento: M.T.S.. No entanto, o que fazem? Não sei. Talvez, se reúnam para ir contra a este sistema que fede.
E por fim: T.W.C., Tribo Water Closet. São os descolados. Querem parecer moderninhos – um look mais fashion que o outro. O canal predileto é MTV, Music Television. Se consideram os winners do mundo. E para achá-los é fácil. McDonald’s, BlockBuster, Shopping Center, são alguns dos locais que freqüentam. Trabalham em multinacionais e a partir do momento em que conheceram a privada, “abostam” na privatização de tudo, no entanto se esquecem de lavar as mãos depois das obras realizadas. Um dado histórico: a T.W.C é originária do mesmo país em que houve a colisão de aeronaves com as torres do W.T.C.. E o seu lema é “W.C. é cool“.

Mas depois de toda essa elucubração, quero exprimir o que de fato me encanta no banheiro. É a liberdade – ou liberté para a T.T., freedom para a T.W.C. e para o M.T.S., ainda desconheço o conceito atribuído a este termo, contudo ouvi dizer que eles almejam maior liberdade entre os países do “Merdosul” – Liberdade. Que ao se unir com a Privacidade possibilita o isolamento total, indo de encontro comigo mesmo, com o silêncio, o sossego, a paz interior. E às vezes, é apenas aqui, sentado, sem influência exterior, em estado de reflexão, que consigo me concentrar para escrever crônicas como essa e alcançar a “abosteose”!

Júlio de Ló

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